Eu penso que já todos perceberam, mas, por ter tempo, explico o que se está a passar no país. É muito simples: diversos políticos e não menos directores de jornais (excluído o director desta folha, digo-o já, antes que ele me ponha a andar e eu perca o emprego, que isto anda mau para cronistas) reúnem-se conspirativa e secretamente com certos senhores do Ministério Público e abundantes magistrados e fazem entre si a pergunta: como vamos tramar o chefe do Governo?
É certo que não são todos os políticos, todos os magistrados, todos os directores. Além do meu (benza-o Deus) Director, que fica sempre a uma certa distância dos conjurados (embora haja que ter um olho nele), há a contar com aqueles que, sendo amigos do arguto, estão, não muito longe, a conspirar contra a conspirata.
Temos assim, em curso, duas maquinações: a propriamente dita, que quer, por força, deixar o legítimo em maus lençóis, e a contra-conspiração que quer santificar o engenheiro e livrá-lo de todo o mal, Ámen. Os primeiros juram-lhe pela pele; os segundos dizem-lhe que não há ninguém que a ele seja mais fiel.
De um lado, está Manuela (Ferreira Leite) e o seu partido, a outra Manuela (Moura Guedes) e a sua raiva e, quem sabe, se ainda a outra Manuela (Eanes) e o seu marido! E ainda o Rangel e os seus óculos, o Aguiar-Branco e o seu hífen, o Passos Coelho e o seu penteado, o Fernandes e o seu twitter, a Felícia e o seu aspecto, o Crespo e a sua t-shirt, o Saraiva e as suas memórias, o Palma e o seu sindicato, o juiz do Baixo-Vouga e o seu artigo do Código, o procurador de Aveiro e as suas escutas; e toda a oposição, e todos os jornalistas que se sentiram pressionados mesmo que não tenham sido, e todos os funcionários que não foram aumentados, mesmo que não trabalhem, e todos os que votaram no PS e se arrependeram porque não foram para a PT e mais aqueles que, não querendo nada, gostam da confusão.
Do outro lado, com o legítimo, está o Silva Pereira com a voz e a cara do engenheiro, o Santos Silva mais a sua farda, o Lacão com o que o for preciso, o Soares e a sua manha, o Pinto Monteiro e a sua clareza, o Noronha e a sua consciência de 1ª Instância, o director do "Económico" e a sua coluna. E ainda os boys, os administradores de golden shares, os gestores do Estado, os banqueiros feitos à pressa, os novos ricos e os velhos socialistas - os quais, sempre que vêem a hipótese de conspirar, lá marcam presença, gritando que está de volta o fascismo.
Entre estes dois pólos estão a meia-dúzia de pessoas que se mantêm independentes e (naturalmente, não vá o gajo despedir-me) o meu querido Director.
Mas de que tratam as duas conspirações? Bem, a primeira diz que o primeiro-ministro é mau, mas não pode sair agora por causa do programa de estabilidade e crescimento! A segunda diz que ele é bom e que tem de ficar por causa do programa de estabilidade e crescimento!
Um dia, um daqueles poucos cidadãos que não são de um lado nem do outro, lembrou-se de colocar esta pergunta: no meio disto tudo, já alguém se lembrou do que é preciso fazer por causa da economia?
Foi então que dos dois lados o olharam, com desprezo e comiseração, concordando que ali estava uma pessoa que não percebia nada de política.
Que era curto de entendimento!
COMENDADOR MARQUES DE CORREIA
Texto publicado na edição da Única de 27 de Fevereiro de 2010