Os governos europeus mostraram que o Tratado de Lisboa, apregoado como reforço da presença da União no palco universal, começava por a dificultar, soltando indecorosamente em público 27 cães nacionalistas a dois ossos intergovernamentais e revelando na escolha desses dois chefes políticos preocupações de equilíbrio entre Norte e Sul, Leste e Oeste, grandes e pequenos, homens e mulheres, louváveis em quem presumisse dar lições de moral ao resto do mundo mas prejudiciais para quem tenha de se defender dele. Entretanto, Obama, que não fora a Berlim festejar os 20 anos da queda do Muro, fazia visita pastoral aos fiéis da Ásia e do Pacífico e encontrava-se em Pequim com o seu colega chinês Hu Jintao.
Lendo textos preparados e sem admitirem perguntas dos jornalistas (na China, sê chinês), os dois afirmaram quererem fazer da Conferência de Copenhaga um sucesso na luta contra o aquecimento global (a China produz 20,7% dos gases com efeito de estufa do mundo e os Estados Unidos 15,5%) e quererem trazer a Coreia do Norte de novo à mesa das negociações; Obama disse que ambos exortavam o Irão a ser mais cooperativo e aconselhou a China a falar com o Dalai Lama; Hu Jintao disse que a China e os Estados Unidos iriam discutir bilateralmente direitos humanos e liberdade religiosa. A marcar bem a ascensão da China disse também que os dois países se tratavam agora de igual para igual, acrescentando chavões tradicionais da retórica da China comunista - "respeito mútuo"; "ascensão pacífica"; "não interferência em questões internas' - e, em alusão transparente a tarifas impostas recentemente por Washington a produtos chineses, lembrou que nas circunstâncias actuais ambos os países precisam de se opor a quaisquer medidas proteccionistas.
Comentadores europeus falaram sombriamente de um G-2 com muito mais comando do mundo do que o G-20 ou as Nações Unidas, mas aí há grande exagero - e o problema não é esse. O problema é que a ascensão da China ao palco universal onde a União Europeia se quer afirmar vem com reforço contínuo das suas poderosas forças armadas e com explosões de nacionalismo que confrontos recentes com minorias intramuros têm vindo a exacerbar. Não são só deputados a votarem aumentos dramáticos do orçamento de defesa e apparatchiks a aplicarem cegamente instruções do comité central. São dissidentes que acusam o Governo de ceder ao estrangeiro; um grupo rock banido que canta: "Taiwan é nossa, o Tibete é nosso. Transigir com a América e o Japão é uma desgraça"; o livro colectivo "China Infeliz", em que um dos autores preconiza que o país tenha forças armadas capazes de conquistar seja quem for, seja onde for e de bater em quem quer que falte ao respeito à China.
Napoleão previra tremor de terra quando a China acordasse - sabendo que não seria no seu tempo. É agora. A União Europeia, sem força militar, deveria concentrar tudo no aumento do seu poder comercial e esquecer sonhos mal partilhados de grande império do bem.
José Cutileiro
Texto publicado na edição do Expresso de 21 de Novembro de 2009