Acusada de infindáveis matreirices, a raposa não tem onde se acoite. E a consciência que a assalta da eterna solidão do seu trote, se não levanta uma réstia de compadecimentos, produz o efeito de encarniçar ainda mais os seus inimigos, alucinados por uma verrina sequiosa de extermínio. São mastins, na sua maioria de duvidosa cepa, remetidos ao plano do rafeiro de sexta ou sétima ordem, em consequência de uma cadeia de cópulas deletérias em que o sangue se foi degradando. Mas nem por isso lhes nasce um vislumbre de solidária piedade no coração.
Proscrita do Reino Unido pela sua obscena crueza, a caça à raposa, desenrolando um novelo de embustes miseráveis, floresce agora em Portugal. Não se trata de pedir contas, mas de perseguir o bicho, de esclarecer as coisas, mas de encurralar o animal, e de administrar o tempo, não vá a assassina paixão despedaçar irremediavelmente a presa. E do alto da sua colina, cosido a um silêncio estudioso, observa o guarda-florestal a partida, gerindo as condições adequadas à sua prevista promoção.
Nem interditas, nem assustadas, as restantes criaturas, coelhos e lebres, toupeiras e texugos e ratazanas, prosseguem na sua faina diária, armazenando o que lhes consentem para matar a atávica fome, e tão pouco entusiasmadas com os lances de montaria como indiferentes aos contornos do seu desfecho. Pois não acontecerá que, seja este qual for, em nada de realmente substancial haverá de alterar-se a vegetativa vida da coutada?
Assim andamos a arrastar o cadáver mítico, chame-se ele Inês, ou Sebastião, ou XVIII Governo Constitucional.