13/02/2012 atualizado às 1:11
Página Inicial » Opinião » Luis Marques » A banalização da mentira

A banalização da mentira

Luís Marques (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 12 de março de 2010

Este é o tempo em que é possível chamar mentiroso ao primeiro-ministro sem que nada aconteça. Nem um processo, um protesto, uma declaração formal. Nada. Foi manchete aqui, neste jornal, e ficou tudo na mesma.

Este é o tempo em que é possível escrever em jornais que o procurador-geral da República mentiu a deputados, e a resposta fique por um vago esclarecimento. Mais uma vez não há processo, nem indignação pública.

Nos tempos que correm é possível chamar mentiroso a titulares de altos cargos do Estado e nada se passa. Das duas uma. Ou eles mentem mesmo e não deviam ocupar o lugar que ocupam. Ou não mentiram e quem o afirma devia prestar contas na Justiça.

A não ser que já ninguém dê nenhum valor à palavra. Nem os que faltam a ela, nem os que assistem indiferentes à banalização da mentira. Nos velhos tempos isto era resolvido à bengalada, ou em casos extremos, em duelos muitas vezes fatídicos. Mais recentemente a coisa resolvia-se em tribunal. No século XXI assobia-se para o ar.

Chamar mentiroso a alguém passou a ser uma coisa, como se diz agora, "gira". Diz-se "olha, fulano tal é mentiroso", com o mesmo sentido que se podia dizer: "olha, fulano de tal vai passar férias a Porto de Galinhas". É tão banal alguém mentir como ir apanhar sol ao Brasil.

Ficam assim legitimados todos os mentirosos. Os filhos que mentem aos pais, os maridos que mentem às mulheres, as mulheres que mentem aos maridos, os empregados que mentem aos patrões e os patrões que mentem aos empregados.

Como tudo isto é tão giro, em vez de uma bofetada o filho mentiroso leva uma carícia, o casal beija-se, e patrões e empregados abraçam-se. A mentira é um factor de união e concórdia, ao contrário do que acontecia no passado, no tenebroso tempo em que era considerada uma ofensa.

Vivemos um tempo estranho. No final do século XIX um filósofo alemão, Nietzsche, previu que no século XXI o mundo assistiria a um "total eclipse de todos os valores". A previsão teria hoje pouca importância se ele não tivesse antecipado as maiores catástrofes para o século XX, ao decretar, com a "morte" de Deus, o fim do sentimento de culpa.

O "total eclipse de todos os valores" é, em si mesmo, uma catástrofe. Se terá ou não outras consequências terríveis é o que se verá. Mas o passado mostra que há motivos para preocupação. A existência de valores, como a do sentimento de culpa, é aquilo que separa o homem da barbárie.

Se estamos, ou não, a assistir ao "total eclipse de todos os valores" é outra questão. A verdade é que, à nossa volta, estão a desabar muitos dos valores que são o cimento da sociedade. Emergem a ganância, a vaidade e a mentira. Não há punição. Os poderosos riem-se da justiça. O sentido de responsabilidade, como o sentimento de culpa, morreu.

Vivemos um tempo em que o Estado, que existe como emanação da sociedade, deixou de ser um padrão de comportamento ético e moral (se é que alguma vez o foi). A banalização da mentira, enquanto elemento da acção política, é um factor de desagregação social com consequências imprevisíveis. Uma coisa é certa: não nos ajuda nada a resolver os problemas do país.

Luis Marques

Texto publicado na edição do Expresso de 6 de Março de 2010

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Com que fins se mente?
CondestavelXXI (seguir utilizador), 2 pontos , 11:24 | Sexta feira, 12 de março de 2010
Num mundo em que os clérigos demonstram ser quem menos teme a Deus, a avaliar pelos pecados que cometem, e em que o princípio princípal é o "venha a nós o vosso reino" no sentido material do termo, obviamente que o mandamento de não mentir está muito mal classificado. Tudo indica que os fins justificam cada vez mais os meios o que também me desagrada profundamente.
O que parece suspeito é haver tanta gente a tentar apanhar mentiras a uma só pessoa. Será que nesse caso concreto também pouco importa se as acusações são verdade ou mentira desde que se atinjam os fins?
 
 Regras da comunidade
Bravo
Zé do Cachené (seguir utilizador), 1 ponto , 9:07 | Sexta feira, 12 de março de 2010
Como quase todas as semanas, bravo!
 
 Regras da comunidade
Mentirosos ao poder
CãodaRosa (seguir utilizador), 1 ponto , 10:26 | Sexta feira, 12 de março de 2010
A questão é pertinente e não há qualquer dúvida sobre o triunfo da mentira e o "total eclipse de valores" preconizado por Nietzsche, é real. No nosso país a mentira chegou ao poder de forma gradual e imparável devido à nossa natural bonomia, temos tendência para justificar todas as patifarias daqueles que programada e finoriamente se apoderam dos órgãos de decisão, nunca os responsabilizamos, aceitamos e desvalorizamos a sua incompetência. Na Administração foi manifesta e descarada a forma como gente sem valor, mas com capacidade para manipular os órgãos de comunicação social, conseguiu ocupar cargos dirigentes, venderam a bom preço o produto do trabalho dos outros e valorizaram obra própria inexistente, imaginária, sem serem descobertos. Valeram-se da mentira para progredir e é dela que vivem e com ela mantém o poder. Com a classe política é a mesmíssima coisa, fazem-se eleger fugindo à verdade, prometendo aquilo que sabem não poder cumprir, sabem que podem mentir descaradamente sem consequências, quando muito são castigados com o exercício de um cargo hierarquicamente superior. A mentira torna-se determinante nas relações de poder, o mentiroso de baixo, tem na mão o mentiroso de cima e aquele aguenta e promove o segundo que por sua vez segura e puxa o primeiro para não cairem ambos. Estamos assim condenados à pouca sorte de termos quadros de mérito votados ao esquecimento, condenados a trabalhar por eles e por todos os mentirosos incompetentes que o compadrio acolheu.
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




O fado do BCP
0:00 Sábado, 11 de fevereiro de 2012,
O cavaquista anónimo
0:00 Sábado, 4 de fevereiro de 2012,
O gato de Deng
0:00 Sábado, 28 de janeiro de 2012,
A democracia em risco?
0:00 Sábado, 21 de janeiro de 2012,
A loja do poder
0:00 Sábado, 14 de janeiro de 2012,
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP