A violência e o caos são telegénicos. A distopia de uma sociedade sem Estado - nestes momentos recordamos a falta que ele nos faz - excita a imaginação dos europeus. Mas no meio da ausência de regras e de Estado o instinto de sobrevivência não resulta apenas em barbárie sem limites.
A Rádio Caraíbas transformou-se num autêntico centro de operações. No início era apenas um guichê de perdidos e achados. Mas porque no Haiti não há Estado passou a ser voz de comando para que os moradores de Port-au-Prince organizassem as suas vidas em comunidade. Para combater o caos e o boato. Para levar os pedidos de ajuda às organizações internacionais. Como nos mostraram alguns canais de televisão internacionais que não se dedicam a voyeurismo, em vários bairros os haitianos organizam-se para se apoiarem uns aos outros. Sem a ajuda de ninguém, juntam o pouco que há para a sobrevivência de todos.
A solidariedade humana não é menos natural do que a barbárie e o egoísmo. Não cabe é em cinco segundos de imagens num telejornal e não alimenta o cinismo sistemático sobre a natureza humana. Mas não é obra de pessoas extraordinárias. Nem é a excepção que confirma a regra. Ela não existe apenas por imposição moral do poder. Surge, na luta pela sobrevivência, tão espontânea como a violência. Porque é tão humana como a violência.
Porque podem
Os bombardeamentos de Gaza foram há um ano. Estive lá há uma semana. É como se o tempo não tivesse passado. Tirando alguns hospitais, nada foi reconstruído. Reuni com deputados nos escombros do que antes era o hemiciclo do único parlamento com poderes efectivos democraticamente eleito do mundo árabe. Israel, com o apoio do Ocidente, achou que devia enviar uma mensagem clara: preferimos ditadores dóceis à vossa escolha livre. As infra-estruturas fundamentais de um Estado já não existem e quem ficou sem casa vive ainda em acampamentos.
Nada foi reconstruído porque nem sequer toda a ajuda internacional disponível entra. Nem cimento, nem gasolina, nem comida ou medicamentos suficientes. E os palestinianos não podem sair. Estão presos e em morte lenta. O que entra passa por túneis ilegais que ligam Gaza ao Egipto. Armas, é verdade. Mas também tudo o que é necessário para sobreviver. Os egípcios anunciaram que vão fechar os túneis. Mas nem por isso vão abrir as suas fronteiras para controlar o que passa. Porque o bloqueio, que não é apenas israelita, tem objectivos políticos. O Hamas é aliado da Irmandade Muçulmana e a Irmandade Muçulmana é o maior inimigo interno da ditadura egípcia. Há que fazer os palestinianos de Gaza sofrer mais um pouco.
Do lado israelita já nem se perde tempo com argumentos. Separado que está o território que sobrou para os palestinianos, continua-se a construir colonatos na Cisjordânia e a preparar uma qualquer próxima ofensiva a Gaza. A estratégia é simples e de longo prazo: correr com os palestinianos das suas terras. Violam impunemente todas as leis internacionais. Porque podem. Porque os EUA acabarão sempre por apoiar tudo o que façam. Porque os ditadores árabes estão mais preocupados com a sua própria sobrevivência. Porque a Europa não existe. Porque a justiça internacional é uma fraude. e podem
Texto publicado na edição do Expresso de 23 de Janeiro de 2010