1. Algumas almas do PS tiveram esta ideia estalinista: os rendimentos dos portugueses passariam a estar disponíveis num qualquer sítio da internet. Tudo em nome, diziam, da "transparência" e do "combate à evasão fiscal". Este absurdo jurídico, que coloca em causa qualquer ordenamento constitucional, saiu da cabeça de três vice-presidentes do grupo parlamentar do PS. E repare-se na mentalidade das pessoas que pensaram a coisa: "quando um bem público está em causa a privacidade tem limites" (Strecht Ribeiro). Se esta medida fosse para a frente, os cidadãos iriam espiar-se mutuamente, num imenso big brother fiscal. Mas Strecht Ribeiro acha que deu um contributo notável para a civilização.
2. Felizmente, o grupo parlamentar é liderado por um político digno, Francisco Assis. E Assis colocou ordem neste imenso disparate. E fê-lo como deve ser, sem deixar dúvidas: "a minha discordância em relação a esta proposta vai ao ponto de garantir que, enquanto for presidente do grupo parlamentar, ela não será apresentada pelo PS". Bravo.
3. Francisco Assis tem actuado com uma enorme dignidade. Assis recusou ser "porta-voz" de Sócrates, porque é o líder da bancada parlamentar do PS.
A bancada do partido do governo não deve ser um anexo do governo. Assis percebe isso, e actua com essa dignidade institucional. Bravo, parte II.
4. Este choque "fiscal" na bancada do PS parece-me um choque entre o "socratismo" (forma de actuar que passa por cima das regras mais elementares de uma sociedade livre) e o "velho PS" (forma de pensar que respeita os procedimentos de uma sociedade livre). É um choque interessante, tendo em vista o futuro do PS. E homens como Assis merecem um lugar de destaque nesse futuro.