Há uns meses, Paul Collier, ex-director de investigação do Banco Mundial, publicou um artigo que envolve o futuro da agricultura e da indústria em África, numa perspectiva do aumento da qualidade de vida dos africanos, nomeadamente os de origem rural. Uma vez mais não irá deixar indiferentes todos os que acompanham aquela realidade. Conhecido pelas suas posições polémicas, desde as razões do não-desenvolvimento africano quando comparadas com outras regiões do mundo, passando pelo papel da ajuda internacional até à colocação na ordem do dia (há alguns anos) de uma agenda económica das guerras civis, este economista ver-se-á vergastado ou apoiado conforme os pólos dos seus detractores ou dos seus adeptos. Propondo uma alteração no enfoque da ajuda internacional canalizada para África, priorizando as infra-estruturas, particularmente as que beneficiem a industrialização, há aqui uma cruzada contra os românticos que querem manter a vida no campo bucólica.
Na verdade, é surpreendente como o sector agrícola no continente continua a ter, na generalidade dos casos, tão baixas produtividades e níveis de produção escandalosos. Por mais declarações que sejam emitidas pela União Africana, pelos governos ou que constem do Nepad, continuar a viver no campo é uma realidade penosa e de extrema pobreza. Os benefícios do desenvolvimento perdem-se na primeira curva do mato. A dificuldade em encarar a importância deste sector conduz à desvalorização de medidas que devem ser dirigidas à pequena produção.
Ao invés, a tentação dos programas governamentais pelas grandes superfícies, as mais das vezes ligadas à produção para exportação com pouco ou nenhum grau de transformação local, deixa ao abandono os que mais necessitam. Nem o país ganha em valor acrescentado nem cria novas oportunidades de actividade, particularmente na indústria transformadora. Aparece a ajuda internacional e os programas que aliviam a dor... de viver no campo. As grandes plantações medram, e com elas, num número cada vez maior, chegam agricultores importados.
Como proprietários ou como mão-de-obra. Atribuem-se direitos de exploração da terra por períodos de tempo alargados em contratos entre governos. Beneficiam os países que têm problemas de terra e que têm de produzir alimentos e outros produtos agrícolas para satisfazer as suas necessidades caseiras. Agricultores sul-africanos e zimbabweanos, depois de problemas domésticos, emigraram para outros países. Os chineses são a onda mais recente, da Nigéria ao Quénia, passando pelo Sudão e Zâmbia. Formam aldeias rurais entre 400 a 2000 pessoas. Há uns tempos também se falou da possibilidade de portugueses irem para Angola e Moçambique.
E entretanto o filho do agricultor sonha em poder vir para a cidade, onde não há indústria e não há emprego. Mas viverá num meio ambiente saudável e sem stresse, dir-se-á... Mas é isso que ele quer?
Manuel Ennes Ferreira
Professor do ISEG e "think tank" Grupo África-IPRI
Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Dezembro de 2009