13/02/2012 atualizado às 1:11
Página Inicial » Blogues » A agenda de Mário Cláudio
Pág. 1 de 16  1 | 2 | 3 | 4 | 5 |
Ver 10, 20, 50 resultados por pág.

A outra Face

Mário Cláudio (www.expresso.pt)
13:58 Sexta feira, 10 de fevereiro de 2012

À pergunta frequente, e que na verdade constitui um modismo social, "Então você não está no Facebook?", respondi até há pouco com um sim arrastado pelo embaraço. Alguém que jamais se identificaria, mas que sem dúvida me dedicava algum afeto, construíra uma página centrada na minha pessoa, alimentando-a com matérias renovadas, sobre as quais não exercia eu qualquer intervenção. Desaparecida num ápice, admito que em consequência da manifesta timidez que me tolhia, acabei recentemente por substituir a tal presença por uma de que, e esta sim, me assumo em absoluto responsável.

Sinto-me no entanto, e perdoe-se-me a blasfémia, simultaneamente objeto da dramática proclamação de Pôncio Pilatos, "Ecce Homo!", e sujeito afinal da pacífica vontade de apresentar o rosto. Como o ator inexperiente que entra em cena, inseguro da qualidade do seu desempenho, ou como o condenado de mãos atadas, atirado para o meio da populaça, aqui me implanto, conforme costuma dizer-se, "a pedido de várias famílias", e na maior das incertezas sobre o destino informático que os deuses me reservam. Saúdam-me velhos amigos com a reticência de quem pensa, "Só agora?", ou com a irritação de quem conclui, "Só faltava este!", propõem-se-me inúmeros, mais ou menos desconhecidos, e encolho-me na insondável ignorância tecnológica que me punge.

Essa como que fobia convivencial que me domina, entorpecendo-me o indicador sobre o rato, e desnorteando a viagem deste no écran do omnisciente monstro que me dá ordens imperativas, tratando-me por tu, ameaça conduzir-me assim à pura e simples capitulação. Não fora a paciência de quem me guia na tormentosa aprendizagem, teria eu deixado já para outros, e com indisfarçável alívio, a empresa de diligência e lazer que de súbito desatou a marcar, e às vezes tragicamente, o quotidiano de milhões e milhões de seres humanos. Tranquiliza-me quem me inicia no alfabeto das lides, garantindo-me que com o tempo todos os meus medos terminarão por se dissolver. Mas na desconfiança do aluno do ensino básico que não consegue desenhar o caneco que lhe põem à frente, ou trautear os primeiros compassos de A minha Alegre Casinha, agradeço a simpatia, finjo acreditar no prognóstico, e encerro transitoriamente o computador.

 

A revolta das coisas

Mário Cláudio (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 4 de fevereiro de 2012

A relação que estabelecemos com as entidades inanimadas, e sobretudo com as que fazem parte do nosso quotidiano, define um universo de mistérios que leva mais do que uma vida inteira a completamente desvendar. E até a casa que habitamos, e cujos cantos presumimos conhecer de ginjeira, nos propõe complexos enigmas de diálogo, não raras vezes indecifráveis.

Sempre me espantou por exemplo essa forma de raiva mansa com que me recebem os trastes domésticos, quando regresso de férias, e essa como que quarentena que me impõem até que volte a sentir-me em paz na sua companhia. E as interrogações que me dirijo, "Estarão zangados por os ter deixado sós?", "Afinal quanto tempo durará o amuo?", "Querem ver que se acham no direito de me cobrar por uma ofensa imaginária?", apenas possuem o condão de os contrair em mais fundo afastamento.

Mas há utensílios que constantemente se insurgem contra nós, furiosos com a submissão em que os traz o ser humano, e aos quais apesar disso, obstinados em provar a nossa dignidade de rei da Criação, e a nossa inalienável natureza de homo faber, persistimos em recorrer. Penso naqueles bules, e naquelas cafeteiras, em metal inoxidável, que glosam o design Bauhaus que os originou, e que não nos permitem servirmo-nos deles sem verter no tampo da mesa boa quantidade do líquido que contêm, isto a menos que nos lembremos de lhes levantar a tampa antes de os usar.

E a inglória luta que travamos com certas embalagens, sobretudo as dos produtos made in Portugal, esfrangalhando-nos momentaneamente os nervos, conduzem-nos com frequência a inquirir, "Então não conseguem imaginar melhor?", "Que estranha neurose os obrigará a repetir uma fórmula manifestamente ineficaz?" Recorremos então à faca, ou à tesoura, quando não aos dentes, para libertar tais artigos da sua kafkiana prisão. Dá-se com eles de resto algo de idêntico ao que ocorre com umas quantas cidades, Nápoles ou São Francisco, ou Lisboa, situadas à sombra de um vulcão, sobre uma falha sísmica, ou nas suas imediações, e que todavia continuam a ser arrasadas, reconstruídas exactamente no mesmo sítio, e aniquiladas de novo, numa espécie de motum perpetuum, ou de eterno retorno.

A estupidez do animal que somos parece de facto desprezar todos os limites à caturrice que o caracteriza. E a sua determinação em meter a pata na poça, grosseiramente confundida com tenacidade, ou com espírito de sacrifício, ameaça transformar os artefactos que fabricamos em presenças, se não tirânicas, bem mais astuciosas do que nós.

1

A Manhã Perfeita

Mário Cláudio (www.expresso.pt)
17:30 Quinta feira, 26 de janeiro de 2012

"Abril é o mais cruel dos meses", assim inicia T. S. Eliot The Waste Land , e prossegue, "plantando lilases na terra morta, mesclando memória e desejo, revolvendo sombrias raízes com a chuva da primavera." Sempre me intrigou a razão por que teria escolhido tal mês o poeta de língua inglesa, um dos muito raros, realmente grandes, galardoados com o Nobel, sabendo eu embora que com tais palavras pretendia homenagear o medieval Geoffrey Chaucer, afeto a bem diversas frequências da paisagem lírica. Jubiloso como em geral se apresenta, e dourado como um deus que houvesse descido do Olimpo, abril manifesta-se de facto por indesmentíveis amenidades, só de longe a longe atravessadas por um aguaceiro que não chega a molhar, ou por um golpe de vento que espalha as sementes.

Verdadeiramente perverso para mim, e implacável na sua administração de angústias, será sempre janeiro, aparecido após as calorosas cintilações natalícias, e abrindo um ano sujeito a interrogações inúmeras. Nos tempos que correm, e aqui, não concebo mais rematada ilustração dos amargos de boca que andamos a experimentar do que esses trinta e um dias, trespassados pelo frio, desamparados de luz, e marcando a sua presença por geadas e humidades. Ao janeiro português acresce o que constituirá porventura nota nacionalmente relevante, a quase absoluta ausência da festa coletiva que se exprime por foguetes que explodem, altifalantes aos berros, e comezainas restituintes da alegria de viver.

Condoído de nós porém, decidiu brindar-nos o Altíssimo desta vez com uma grinalda de jornadas admiráveis, imersas numa limpidez de aguarela, e numa transparência que evoca o nascimento de Vénus. Deixo-me ficar por isso na varanda sobre o mar, eu que não me julgo naturalmente dado a fruições helénicas, e limito-me à observação de quanto me rodeia, desviado das páginas de um livro que pouco me apetece, e das linhas de um manuscrito que não imagino onde possa desembocar.

Outros como eu, e não menos encantados, envolvem-se nas suas charadas de ecrã de computador, esquecidos do café que bebericam enfim, gelado quase, e pousando a vista, quando a fadiga os toma, numa colónia de gaivotas de peito voltado para o quadrante donde sopra a brisa. Entram os surfistas nos seus fatos de borracha, golfinhos que se metamorfoseassem na pessoa que sempre foram, e as ondas alcançam a praia final.

Nada falta portanto para que se revele perfeita a manhã, nem para que se decifrem os enigmas que nos inquietavam. E eis que T. S. Eliot, caminhando devagar, mas sem imprimir qualquer rasto no areal, conclui nestes termos a sua revisita, "Datta. Dayadhvam. Damyata. Shantih shantih shantih."

 

1

O Escriba Azedo

Mário Cláudio (www.expresso.pt)
17:08 Quinta feira, 19 de janeiro de 2012

Quem quer que se debruce atentamente sobre a expressão do rosto dos dois ficcionistas portugueses, a quem maior tributo se prestou nas últimas quatro décadas, detetará um amargor iniludível, cujas causas mais ou menos evidentes vale a pena averiguar. Ou porque Jeová se manifeste pela crueldade, distribuindo bordoada a tutti quanti, ou porque os camaradas de ofício constituam na sua maioria uma pandilha de medíocres que deveriam desaparecer do mapa, o fácies que nos apresentam é o de alguém que em perpétuo andasse a chupar uma rodela de limão, ou que sofresse de uma incessante dor de dentes. O fenómeno não contém aliás seja o que for de novo, e a agrura do escrevente corresponde a traço que caracteriza autores tão díspares como Bernard Shaw e Claudel, Moravia e Mark Twain, ou Camilo José Cela.

Uma espécie de paranoia profissional, não menos deletéria do que a silicose dos mineiros, marca de facto o escritor que alimenta a ânsia de se tornar, senão o único da sua casta, ao menos o primeiro, ocupando assim um trono mirífico a que mais ninguém se acha com legitimidade. Lembre-se a propósito a passagem da célebre carta, de resto jamais expedida, de Eça de Queirós a Camilo Castelo Branco, na qual o romancista de Os Maias dispara o seguinte, "(...) Adquiro o direito de rogar a V. Exa. que, quando se queixar aos ventos e ao Chiado das pessoas que implicam consigo, como V. Exa. diz, ou que desdouram a sua glória, como eu traduzo, não se volte para mim e para os meus amigos - mas olhe em torno de si para os seus admiradores, e para dentro de si mesmo, talvez."

Se quiséssemos investigar a origem remota da "patologia", encontrá-la-íamos porventura naquele continuado sedentarismo, e na falta subsequente de arejamento, que se revelam inseparáveis da lide literária. A isso escapariam tão-só os mais corriqueiros, e as personalidades femininas que cultivam as belas-letras, essas com certeza por tradicionalmente temerem mais do que os seus confrades que a má catadura lhes provoque a emergência de rugas. Quanto aos outros persistirão eles na sua acidez, abraçando-a como tábua de salvação, não vá reputá-los alguém, se espontaneamente sorrirem, de pertencerem à horda dos pataratas que apenas sabem apanhar bonés.

Aquele a quem se chama o Escriba Acocorado, obra-prima da escultura egípcia do terceiro milénio antes de Cristo, convida-nos a interessante reflexão. Não lhe detetamos na cara o menor sinal de acrimónia, parecendo-nos pelo contrário sujeito tranquilo e equilibrado. E porquê?, perguntaremos então. Está bom de ver, porque faz uma vida higiénica, trabalha em tronco nu, acomoda-se em cima de uma lage de pedra, o que lhe refresca os humores, e não se lhe avista nas cercanias adereço, ou fétiche. Desse modo, inteiramente livre do maço de tabaco, do retrato da querida, e do copo de whisky, e contando em exclusivo com a imaginária fímbria de palmeiras ao fundo, lá vai ele executando a sua tarefa diária, acalentado pelo oiro irradiante da impassível face de Âmon.

 

Viva o Porto!

Mário Cláudio (www.expresso.pt)
8:00 Quinta feira, 12 de janeiro de 2012

Atento como todo o português médio à ínfima notícia, breve ou passageira, que "lá fora" se dê sobre o nosso país, nada me preparava para a interessante surpresa com que o destino recentemente me brindou. Muitas vezes, folheando no estrangeiro os jornais diários, me entristece o absoluto silêncio sobre tudo quanto, atinente a artes, letras ou política, respeite à "ocidental praia lusitana", e que apenas se interrompe pelos sinais da nossa incontornável estatura futebolística. Por isso mesmo é que me abraço, conforme posso, a esta, inspirado pelo ardor em que vicejam alguns amigos, autenticamente futeboleiros, sempre que o meu pessimismo em matéria de relevância pátria atinge as raias da indecência.

A ligação do desporto-rei ao mundo da moda, só muito recentemente iniludível, mercê do surto do biótipo metrossexual, manifestar-se-ia até hoje menos do que ténue. Os cinco violinos por exemplo assumiam-se hirsutos e rochosos, e não deixariam de exprimir, se os convidassem a pronunciar-se, a maior das repulsas, facilmente degenerável em violência física, pelos seus sucessores que se fariam depilar, acariciar com cremes de beleza, e aspergir com capitosas fragrâncias, ostentando em simultâneo sobre o carolo construções de suma fantasia, ora gelatinosas, ora coloridas. Sentir-se-iam os velhos cracks porventura no cumprimento de uma missão morigeradora dos costumes, a da virilidade de uma raça que se ilustrou por vencer três oceanos, por cortar umas quantas cabeças, e por nunca transigir com mariquices dissolventes.

O espanto que me assaltou, há dias, quando num documentário sobre a marca Chanel, transmitido pelo canal Arte, distingui com nitidez, posto que de relance, um cachecol do Futebol Clube do Porto, confundir-se-ia em mim com a dúvida de saber se não teria por acaso adormecido diante do televisor. Lá estava ele, o inconfundível adereço de lã, impante e em lugar destacadíssimo no atelier de sapataria da referida Casa, e não muito longe do retrato do genial estilista que a fundou, pintado em estilo Andy Warhol.

A questão que logo se me levantou, e que se mostrava inevitável, considerado o meu pendor a inventar enredos, foi a de descobrir no foro íntimo de que modo teria ido parar ali semelhante atestado de filiação clubística. Não seria de presumir que o tivesse suspendido o fátuo Karl Lagerfeld, criatura que se abana com leques, e que portanto se revela imprópria para a frequência dos estádios. A única explicação para o prodígio residiria, e foi nisso que me quedei, na eventual existência entre os sapateiros Chanel de um qualquer português emigrante, oriundo do Minho, das Beiras, ou de Trás-os-Montes.

Bem vistas as coisas, o que sobretudo importa é que pouco a pouco, e contra o pertinaz urro dos dinossauros, se vão abatendo gradualmente as fronteiras, não as dos estados que menos e menos valem, mas as dos estereótipos, e que continuem a viajar os filhos de Viriato até tocarem, arrebatados pelas suas paixões, latitudes aparentemente inatingíveis.

 

A Contra-Voz

Mário Cláudio (www.expresso.pt)
17:16 Sexta feira, 6 de janeiro de 2012

Uma amiga, romancista da geração a que pertenço, telefona-me com votos de um ano novo feliz, e por entre as correntes lamúrias aconselha-me, "O importante será não ouvir demais o Medina Carreira." Faço-lhe ver que talvez não adiante tapar os ouvidos, e que até dou comigo frequentemente a concordar com o tom geral da mensagem do acidulado comentador, mas sugiro que o desejável seria que pudesse emergir entretanto a acalentadora contra-voz. Fico contudo a pensar, uma vez desligados os telemóveis, de que substância se alimentaria esta ao longo dos doze meses que temos pela frente, e doze meses serão, ou quase, mesmo que venha a cumprir-se a profecia maia.

É claro que nos resta a paisagem, ou a parte dela não devastada ainda pelos fogos sazonais, pela especulação imobiliária, ou pelo mau gosto à solta. E não deixa de nos amparar também a velha, austera e fecunda gastronomia pátria, se entretanto a não assassinarem o bacalhau assado na brasa com suas lâminas de foie-gras de ganso patola e redução de vodka Bolskaya, ou os pésinhos de coentrada em emulsão de fondue de queijo emmental e blinis de arenque. Desilude-me porém essa estranha vocação, representada pela bonomia dos descendentes de Viriato que, quando não se remetem à preguiça, o máximo dos máximos que conseguem oferecer ao mundo é o desfile de Pais Natal mais concorridos que as crónicas registam, ou os maiores chifres de bode de que há memória.

Morta toda aquela exaltação a que nos convidam os grandes visionários da lusa escatologia redentora, reservada à alma que nos habita, e que António Vieira pregava do alto dos púlpitos barrocos, ou Agostinho da Silva dos píncaros da sua cátedra desmontável, eis-nos circunscritos a contar por escassos dedos de uma só mão as doçuras que nos embalam, e as esperanças que nos assistem. Bastará isso ao sustento da contra-voz que se levante em face de Medina Carreira? Eu creio bem que sim porque nos vale o eterno faduncho, muito mais exportável hoje do que nunca, e com direito a uma cidadania que se deseja incapaz de o adulterar. Não nos abandonará por conseguinte a dor, a dor, a dor, dos que tão rapidamente regressaram do mar salgado para além do Bojador.

Menino Jesus 1, Pai Natal 0

Mário Cláudio (www.expresso.pt)
9:00 Sexta feira, 30 de dezembro de 2011

Óbvio suspeito de inclinações pedófilas, não há muito tempo, o Pai Natal terá porventura entrado em queda nestes últimos anos. Admite-se porém que, a avaliar pelo silenciamento a que foram submetidos tais casos, não tardará a que o generoso velhote venha a lucrar com a erradicação do que se afigurava autêntica epidemia. Bem ficará pois o nosso Pai Natal de consciência sossegada, cuidando de suas renas com absoluta disponibilidade de espírito, e desculpado de todo e qualquer arrependimento.

Outra ameaça espreitaria contudo o indefectível amigo da Coca Cola, reduzindo-lhe a actividade desbordante, e apagando-lhe a alegria no rubicundo rosto. Consumidor obsessivo de inutilidades, e promotor das falsas apetências de seus fiéis, o ancião da Lapónia acabaria por enfrentar constrições agudas, com as quais nem os adjuntos duendes, tão dados a fantasias, alguma vez terão sonhado. Tornar-se-ia por isso o Pai Natal viva ilustração de uma certa obscenidade, a que não se detém ante as tentações da mesa, se se considerarem os inalterados refegos que o identificam.

Aproveitando este acervo de circunstâncias, o gabinete de campanha do Menino Jesus avançaria com um retrato deste, deitadinho na manjedoura, sob a forma de um pano do pó mal estampado, e aparentemente incapaz de competir com a imagem do velho barbudo que por aí ciranda ainda. De facto como anular o desenvolto charme do Pai Natal clássico, trepando às chaminés, e penetrando nos apartamentos, ou saindo deles, com a destreza de um larápio espertalhão que ostentasse o nédio rabiote como certificado do conforto em que vive? Mas a quebra dramática do poder de compra do paternalista lapão redundaria em benefício dos propósitos do recém-nascido Menino Jesus, apontando a alternativa de uma modéstia que incita a acorrer às lojas chinesas, agora que se trata de optar por lembranças baratuchas.

Enxofrado como se compreende, reverteria assim ao seu Norte profundo o nosso Pai Natal, de trenó atafulhado de volumes sem escoamento, e a troçar com ruidosos ho-ho-hos das dádivas com que depararem as crianças portuguesas. É que, não sendo bonito oferecer os presentes que recebemos, não as contemplaria o Menino Jesus com oiro, incenso e mirra, e nem mesmo com os produtos da faina agro-pastoril. Terá deixado ele no entanto, a brindá-las no Inverno do nosso descontentamento, uma bucha de pão, ou tão-só um sorriso finalmente tranquilo.

Piqueno

Mário Cláudio (www.expresso.pt)
9:00 Sexta feira, 23 de dezembro de 2011

Em carta ao seu dilecto Alberto de Oliveira, e na altura em que a relação entre ambos se aproximava da definitiva ruptura, escrevia António Nobre, "Quando chegará a hora de eu te ver harmónico e igual (sem pequenos com i) simples a valer (...)?" A gravidade do momento que o poeta então vivia, postulando a abstenção de toda a frivolidade, condenava o emprego do pretensioso "piqueno" como um desses classismos que faziam crescer a água na boca aos alpinistas sociais. E ainda hoje o "piqueno" constitui petisco linguístico de uns quantos passarinhos, se bem que dos que mais andam a cair da tripeça, inculcando no ouvinte deles a clara ideia do onde vêm, ou do aonde pretendem aportar.

Juntamente com outras falsas marcas de estirpe, e com o correlativo código de proibições, o "piqueno" fica assim como sinal que atravessou as épocas, a amparar quem se esgadanha por subir a partir da chinela. E avançando o "enterro" em vez de o "funeral", o "encarnado" em lugar do "vermelho", ou a "retrete" que exclui a "sanita", acompanham-se os tristes classismos de hoje de um compêndio de gestos, estranhamente inventado pela portugalidade, a fim de assinalar a diferença, da qual consta como generalizado arquétipo o beijo solitário na face, ou fora dela, a que penosamente aderiram múltiplos "bens", feitos à pressa. Mas eis que se manifesta aqui um distinto, e curioso, fenómeno sociológico, esse que consiste na substituição do tal emblema de estatuto, sempre que o queque se deseja simultaneamente aspirante ao intelecto. Opta-se então, e corajosamente, pelo duplo beijo, desse modo se apresentando a prova da hegemonia da qualidade mental.

É possível que, mercê das agruras resultantes do agigantamento da crise, passem à história os derradeiros abencerragens do "piqueno", e com eles os praticantes do beijo único, tão temporário afinal como foi o surto da famosa ténia, parasita justamente celebrado pela sua misantropia. E já que nos últimos tempos, e entre aqueles de quem menos se esperava, se generalizou o uso da "minha esposa", tão estridente aos tímpanos dos correctos, mas indetível na sua marcha de produção brasileira, novos horrores, ofensivos da sensibilidade dos "comme il faut", desatem a campear por aí a torto e a direito. Aparecerão em breve talvez a "minha gaja", o "meu mânfio", os "meus catraios", e até, se formos suficientemente ousados, a "minha canalha", e os "meus velhotes".

Que assim seja, se Deus quiser, e à boa e portuguesíssima maneira!

As Páginas Arrancadas

Mário Cláudio (www.expresso.pt)
8:00 Sexta feira, 16 de dezembro de 2011

A morte de um amigo, ocorrida agora na lógica dos factos, obriga-nos a rever a integridade de um diálogo de anos, e a dele retirar a linha de palavras que o resuma. Luiz Francisco Rebello saiu da cena visível para inculcar a memória do humanista que não separa o trabalho e os dias do ritmo da função respiratória. Assim preencheu ele uma espécie em vias de desaparecimento, a do viajante que se recusa a circunscrever a errância à palração de congresso, desenvolvida atrás de uma mesa de saias, encimada pelo farfalhudo enredo floral. Neste sentido recortar-se-á Luiz Francisco Rebello na nossa lembrança como testemunha saudavelmente europeia, da estirpe de outras excepcionais, e da mesma geração, um Jorge de Sena, ou um David Mourão-Ferreira, por exemplo.

Há pouco ainda, e despedindo-se de quem assina esta crónica, exprimia Luiz Francisco Rebello o temor de não conseguir levar a bom termo a tarefa literária que trazia entre mãos, denunciando-se portanto da condição daquelas que, conscientes da precariedade de qualquer gesto, abrem todavia pela escrita uma vereda salvífica, e não raro a única em que profundamente acreditam. E a autenticidade com que assumia o seu ofício manifestava-se na discrição com que só de passagem a ele se referia, preferindo a isso, e ao contrário dos medíocres que nos massacram com os seus projectos em curso, a inteligente contemplação da obra alheia. Tratava-se afinal de um estilo de vida, o dos que constroem civilização, indiferentes ao histérico desnorte de quantos se limitam a abastecer-se dela.

Conhecendo como ninguém o mundo dos direitos de autor, e batendo-se galhardamente pelo seu respeito, sempre os veria Luiz Francisco Rebello como mera extensão dos valores fundamentais que antes de Abril defendera com suprema coragem. Mas não se ficaria por essa agenda, ao operar o milagre de simultaneamente oferecer à história do teatro português o fruto da pesquisa do escrupuloso académico, e o contributo do talento do grande dramaturgo.

Daí que não signifique esta ausência, se quisermos prosseguir na sensatez de aproveitar o que mais conta, uma perda inconsolável. O homem que nos deu As Páginas Arrancadas, e pugnou por um teatro moderno e interventor, capaz de robustecer os ânimos, e de apontar caminhos, legou-nos um compêndio de lições a que na verdade não falha folha alguma.

Consciência tranquila

Mário Cláudio (www.expresso.pt)
16:30 Quinta feira, 8 de dezembro de 2011

O estranho síndrome que avassala o país, ameaçando convertê-lo em breve num reino angélico, exprime-se nesta declaração, "Estou de consciência absolutamente tranquila", debitada por um número crescente de cidadãos acima de qualquer suspeita. Poderão cair as pontes, abrir-se-lhes aos pés o boqueirão da bancarrota, ou arderem as florestas que lhes asseguram a respiração, e os imaculados portugueses, de papinho cheio, e com os dedos entrelaçados sobre ele, ressonarão pacificamente como impávidos bonzos. Não haverá outra raça assim, tão pachorrenta, e tão conciliada com as intercadências do coração, que repouse de maneira igual, e contra ventos e marés, suavemente iluminada pelos esplendores da luz perpétua.

Uma nação de consciência tranquila nada deve, seja a quem for, procedendo na base de duas sólidas certezas, a de possuir consciência, e a de se achar esta tranquila, como se navegasse num infinito mar de azeite, preservado da turbulência das borrascas. Por isso é que quanto mais graves se mostram as faltas de que os acusam, e mais pesadas as sanções que as mesmas acarretam, mais os lusos atestam a sua intangível placidez. Quando não o fazem, eis que fogem, sempre inocentes, para o Brasil, para o Reino Unido, ou para parte incerta, impulsionados por essa espécie de delírio divagante que constitui, também ela, patológico sintoma colectivo.

Que ninguém se agite pois na fúria dos elementos em que aparentemente nos debatemos, assistidos como estamos, todos nós, pela alvura das asas com que a Providência nos dotou. Se em algum momento nos assaltar a tentação do pânico, da desistência, ou da descrença no futuro, lembremo-nos da fase célebre de um famoso almirante, arengador das massas, e por instantes arvorado em seu guia histórico. Proclamava ele dos altos da sua varanda, "O povo está sereno, meus amigos, é só fumaça, é só fumaça!"

Pág. 1 de 16  1 | 2 | 3 | 4 | 5 |
Ver 10, 20, 50 resultados por pág.
PUB
Arquivo
Email
O Expresso no
MBA