As séries americanas mais populares dizem-nos muito sobre o ar dos tempos nos EUA. E poucas disseram tanto sobre o ciclo que acaba nesta terça-feira como "24". O que marcou todas as polémicas em torno da série foi, antes de mais, a justificação da tortura no combate ao terrorismo. E, apenas como metáfora, "24" serve bem para retratar a degradação moral a que assistimos durante o reinado de George Bush.
Nos EUA, a tortura nada tem de novo. Assim como não têm as violações aos direitos cívicos, a ocupação de outros países, os assassínios de líderes políticos no estrangeiro, as prisões ilegais... O que é novo é a legitimação ideológica de tudo isto. A começar pelas palavras. Tortura, assassínio, inimigo, guerra ou prisioneiro ganharam novos sentidos. Como se viu em Guantánamo, todos os conceitos se perderam numa nebulosa ética, usando o medo como uma forma de destruir os alicerces morais em que assenta o Estado de Direito.
"24", que estreou dois meses depois do 11 de Setembro, limitou-se a popularizar a novilíngua neoconservadora. Serviu, como "007", "Rambo" ou "MacGyver", para reproduzir o discurso do poder. Depois de já ter estreado, vai agora ser retomada a sétima série. Começou com o agente Jack Bauer a justificar-se perante o Senado. Agora continua, já com a sua unidade antiterrorista desactivada e com algumas dúvidas morais a assaltarem o protagonista. Não chega a ser um pedido de desculpas. Mas é um sinal de que as coisas estão a mudar.
Conselhos do cardeal
Dirigido-se às jovens portuguesas, o cardeal-patriarca de Lisboa deixou um conselho: "Pensem duas vezes em casar com um muçulmano, pensem muito seriamente, é meterem-se num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam". É comovente ver uma instituição que impede a ordenação de sacerdotisas, que gostaria de proibir o divórcio e que trata as mulheres como mero objecto de reprodução preocupada com os direitos das ditas. Suponho que brevemente veremos o cardeal a dirigir-se aos homossexuais alertando para a discriminação a que o Islão os remete.
Um dos problemas de muitas sociedades muçulmanas não é a sua religião. É não terem conquistado essa grande vitória da civilidade: a de remeterem as igrejas para o seu devido lugar. Só não é arriscado casar com um católico porque não é o cardeal-patriarca a determinar a conduta dos cidadãos e a lei do Estado.
Sempre contra a vontade dos respectivos cleros, a maioria dos países europeus laicizou os seus Estados e as suas sociedades. E impôs a tolerância religiosa como norma de convivência. Esperemos que essa conquista tenha sido eficaz e que as palavras do cardeal provoquem a repulsa pública que merecem. E para todas as pessoas civilizadas se recordarem que, assim como os católicos são diferentes entre si (apesar de em Portugal muitos espancarem as mulheres, a maioria não o faz), o mesmo acontece com os muçulmanos, que são outras coisas além da sua religião. A começar por este simples facto, que, por Policarpo se ter referido nas suas declarações ao "país deles", suponho que desconhece: pouco há em comum entre um muçulmano da Arábia Saudita, da Bósnia, de Moçambique, do Afeganistão, da Albânia ou da Indonésia. Mau sinal é ter de repetir estas evidências a uma pessoa com responsabilidades sociais.
Daniel Oliveira