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2012

Nuno Crato (www.expresso.pt)
9:00 Domingo, 15 de novembro de 2009

Ontem, sexta-feira 13, o filme "2012" estreou em todo o mundo; Portugal não foi excepção. É uma saga da destruição do nosso planeta, com muitos planos espectaculares. Não o vi, por isso não sei se é divertido ou se é apenas repetitivo e enfadonho. Imagino que um filme sobre o fim do mundo deva ser pândego, como muitas mortes carecas e porta-aviões a irem ao fundo. A escolha da data de estreia denota, pelo menos, algum sentido de humor.

O que não é nada divertido é que haja muita gente a levar a sério os receios de um cataclismo cósmico para esse ano de 2012. O alarme começou há algum tempo. Em 1975, Frank Waters, um autor sensacionalista, detectou uma curiosidade no calendário maia, que em 2012 acabará um ciclo, e especulou sobre um cataclismo que lhe estaria associado. Em 1987, José Argueles, que se autoproclama "historiador visionário", juntou-se aos alarmistas. E, em 1995, John M. Jenkins, escreveu novo livro sobre a "Cosmogénese Maia", juntando mais umas pitadas às previsões de catástrofe. Daí para cá, muita gente tem ganho dinheiro à custa dos incautos.

As previsões do fim do mundo não são novas. No fim do primeiro milénio, muita gente pensava que o juízo final chegaria com o ano 1000. Em 2000, houve quem receasse o mesmo, o que leva a concluir que não basta o progresso para calar a ignorância. Ainda em 2000, os profetas da desgraça voltaram à carga com um alinhamento de planetas. O alinhamento realizou-se em 5 de Maio desse ano e nada aconteceu, como era de esperar - ao longo dos milénios registaram-se muitos alinhamentos de planetas, sem qualquer efeito sobre a nossa Terra. De facto, o efeito gravítico diferencial, somado, de todos os outros planetas do sistema solar sobre o nosso é muito menor do que o da Lua. E se o leitor colocar uma maçã perto da sua cabeça, o correspondente efeito de maré que sofre é maior que o de um alinhamento de planetas - o físico Lawrence Krauss deu-se ao trabalho de o calcular. Não obstante esta desmistificação e não obstante as lições dos alinhamentos passados, os alarmistas voltam a prever desastres para 21 de Dezembro de 2012, data em que anunciam novo alinhamento planetário. O cúmulo do ridículo, como se tudo isto não bastasse, é que nessa data não haverá nenhum alinhamento: Júpiter estará numa direcção, Saturno noutra, e por aí adiante.

A fabricação do ano 2012 como ano catastrófico baseia-se numa infantilidade. Estudando o calendário maia, os profetas da desgraça notaram que este se baseia em ciclos dentro de ciclos. Há três ciclos menores, de 13, 20 e 365 dias, respectivamente. E há ciclos de contagem longa, que culminam no baktun, compreendendo 144 mil dias. Segundo os cálculos modernos, imagina-se que o calendário maia tenha começado dia 8 de Setembro de 3114 (a.C., calendário juliano). Pelo que o dia 23 de Dezembro de 2012 seria o fim de um ciclo de 13 baktun. Na notação maia, isso significa que esse dia apenas poderia ser escrito como uma série de zeros, pois não haveria mais símbolos para o denotar. Pensar que isso acarreta o fim do mundo é tão ingénuo como imaginar que um carro explode quando o contador de quilómetros percorridos dá a volta e fica a zeros.

Texto publicado na edição do Expresso de 14 de Novembro de 2009

 

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Excelente crítica "cinematográfica"
Paulo Pedroso (seguir utilizador), 2 pontos , 10:18 | Domingo, 15 de novembro de 2009
O Nuno não foi ver o filme mas, felizmente, consegue ver o "filme" todo à distância.

E o "filme" que aqui nos mostra assume-se como um drama sobre o raciocínio humano, uma tragédia sobre o intelecto humano e uma comédia sobre a condição humana.

Obrigado, Nuno, pela desmistificação!

:-))
 
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    Re: Excelente crítica?!?!    Ver comentário
kcorreia (seguir utilizador), 1 ponto , 16:41 | Segunda feira, 16 de novembro de 2009
    Re: Excelente crítica?!?!    Ver comentário
Paulo Pedroso (seguir utilizador), 2 pontos , 20:29 | Segunda feira, 16 de novembro de 2009
Sociedade doente
Trapezio (seguir utilizador), 1 ponto , 16:43 | Domingo, 15 de novembro de 2009
Vivemos numa sociedade doente, de gente que, sendo poderosa, aproveita-se da superstição como forma de ganhar dinheiro à custa da crendice alheia.

Quanto ao fim do mundo, certamente que deve saber ter havido vários ao longo da história da humanidade e do próprio planeta. Por isso é que não se deve dizer "fim do mundo", mas "fim de um mundo" ...
 
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o problema Y2K dos Maias...
jpafonso (seguir utilizador), 1 ponto , 19:59 | Domingo, 15 de novembro de 2009
"Na notação maia, isso significa que esse dia apenas poderia ser escrito como uma série de zeros, pois não haveria mais símbolos para o denotar"

Eu gostava de poder dizer aqui que se trata do problema Y2K dos Maias (que é bastante sério, imaginem o número de upgrades às estelas de pedra que eles teriam que fazer se já não tivessem falido?), mas não seria honesto para com as capacidades matemáticas deles. Ao contrário do que é afirmado acima, o sistema notacional Maia sendo de base 20, permite registar datas acima dos 13 Bak'tuns. E ainda que as contagens longas dos Maias apresentassem a maior parte das vezes 5 dígitos Maia, existem exemplos de datas usando mais dígitos. Em vez disso, o que há é um tempo mitológico de criação, o momento zero do calendário, que em alguns templos apareceria escrito como sendo "13 0 0 0 0". Junte-se a isto, a crença em ciclos ou numa história circular, a sugestão de que 13.0.0.0.0 escreve-se assim para marcar a duração do mundo anterior, que viveríamos no 4º mundo, e temos a receita para 2012.

Já agora, é interessante para um matemático, a referência aos pequenos ciclos de 13, 20 e 365 dias. Cada data era dada por uma posição nestes 3 ciclos (no nosso calendário é apenas um ciclo de período irregular acoplado a uma contagem de ciclos, no deles era regular sem contagem de ciclos). Sem contagem de ciclos, as datas idênticas repetiriam-se ao fim de 13*4*5*73 dias ou 52 anos Maia. Daí a necessidade da contagem longa.
 
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    Re: o problema Y2K dos Maias...    Ver comentário
maria odete madeira (seguir utilizador), 1 ponto , 17:06 | Terça feira, 17 de novembro de 2009
    O tempo tem uma natureza rítmica?    Ver comentário
jpafonso (seguir utilizador), 1 ponto , 11:46 | Sábado, 21 de novembro de 2009
    Re: O tempo tem uma natureza rítmica?    Ver comentário
maria odete madeira (seguir utilizador), 1 ponto , 21:46 | Sábado, 21 de novembro de 2009
Um dos melhores
mgalrinho (seguir utilizador), 1 ponto , 21:40 | Domingo, 15 de novembro de 2009
Um dos melhores textos de Nuno Crato para o Expresso. Talvez o melhor a seguir ao fabuloso "Ensinem-me, por favor".
 
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