1 Não cedo à nostalgia. Mas ainda me lembro do réveillon de 2008: eu tinha menos 20 anos, menos 20 quilos e menos 20 rugas. E incomparavelmente mais cabelo. Mas tinha, sobretudo, imenso medo. Quem não tinha? O ano de 2009, dizia-se, seria o ano de todos os desastres. Era a crise económica, nascida na América e a caminho da Europa.
Vinte anos depois, olho para um retrato desse tempo e sinto saudades. Vejo-me bem: eu, ar sério e composto, na companhia de pessoas que entretanto partiram, ou me deixaram, ou que eu deixei. Sinto saudades delas, sim. E também da taça de champanhe que tenho nas mãos, uma bebida que Bruxelas acabaria por proibir pouco depois por motivos de saúde pública: descobriu-se que os vapores alcoólicos do champanhe eram prejudiciais até para os abstémios.
Mas a maior ironia é que sinto saudades do próprio ano de 2009. Que não foi perfeito, é um facto. Mas foi sereno e praticamente não deixou marcas. O ano de 2009 simplesmente não existiu.
Verdade que a economia mundial arrefeceu, como se previa. Verdade que o desemprego subiu. Verdade que, aqui e ali, em Atenas ou Paris, houve contestação social e alguma violência juvenil. Mesmo Lisboa não ficou imune a estes circos e ainda recordo o saudoso Francisco Louçã a passear-se nu pelo Chiado, com o cartaz pungente pendurado ao pescoço: "O capitalismo leva-nos tudo." Mas nada que se aproximasse do medo irracional que habitava a alma apocalíptica dos contemporâneos.
Na Europa, e só na Europa, a baixa das taxas de juro sustentou a produção, o emprego e o consumo. Portugal, governado à época por José Sócrates, não ultrapassou os 8% de desempregados, uma cifra que, hoje, com o desemprego nos dois dígitos e nas duas dúzias, nos parece inacreditável.
E mais inacreditável nos parece que a crise económica, uma crise real mas não trágica, tenha tido implicações políticas positivas. Com a queda acentuada do petróleo, que nesse tempo ainda era usado como fonte principal de energia, 2009 foi o ano em que a Venezuela começou o seu divórcio de Hugo Chávez. Com o barril a 30 dólares, Chávez acabaria corrido de Caracas alguns anos depois. Terminaria os seus dias no Hospital Che Guevara, o asilo psiquiátrico cubano onde gostava de ser tratado por "Simón Bolívar".
Não foi caso único. Com o petróleo em baixa, também o Irão viveu tempos de pausa e alguma sanidade: nos 30 anos da Revolução Islâmica, os iranianos puniram a inabilidade económica de Mahmoud Ahmadinejad, um personagem menor que, à época, era conhecido pelo seu anti-semitismo genocida. Com a eleição de Muhammad Khatami, o mundo acreditou, pelo menos durante 12 meses, que o Irão iria abandonar a sua busca insana pela bomba, o seu apoio a organizações terroristas e o seu propósito de aniquilar Israel.
2 Mas lembrar 2009 é lembrar Barack Obama. Bem sei que, depois de Obama, a América já elegeu candidatos mais improváveis, como Sarah Palin (uma mulher) ou Danny DeVito (um anão). Mas a eleição presidencial do primeiro afro-americano teve um impacto brutal nos espíritos românticos de 2009. O mundo inteiro, e a esquerda inteira, rendeu-se a Obama, esperando que o homem fosse, no essencial, tão anti-americano como o mundo era nessa altura, ou seja, depois da presidência do actual secretário-geral das Nações Unidas, George W. Bush.
Obama, pelo contrário, foi um presidente equilibrado e o seu equilíbrio frustrou lunáticos e sossegou moderados. O seu consulado teve vitórias logo em 2009: o seu plano de recuperação económica voltou a injectar confiança nos investidores; na segunda metade desse ano, a economia americana voltava a crescer de forma continuada. Mas Obama não foi apenas importante para a saúde financeira da América; o encerramento de Guantánamo refrescou a imagem moral da República no exterior.
Infelizmente, e ao contrário do que imaginava, Obama não conseguiu retirar do Iraque: houve diminuição de tropas no país. Mas foi uma diminuição pífia que se converteu rapidamente em transferência: os 40 mil que Obama retirou do Iraque acabaram no Afeganistão, a lutar contra o recrudescimento da violência talibã. Os Estados Unidos aprenderiam que a pacificação do Afeganistão não se faria sem concessões às lideranças tribais.
3 E nós? Sim, nós, nesta Europa envelhecida e amedrontada?
Lembro-me que houve eleições por cá. Mas as eleições europeias só surpreenderam pelo desinteresse geral: apenas 31% dos eleitores deram-se ao trabalho de votar, uma queda brutal desde os 45,6% de 2004. Curiosamente, a Europa não se perturbou grandemente com a deserção dos europeus e até respirou de alívio quando a Irlanda, pouco depois e sob chantagem de José Manuel Durão Barroso, que ameaçou suicidar-se, aprovou o Tratado de Lisboa. Estavam abertas as portas para a efectiva criação do Estado Federal onde vivemos. Durão Barroso seria reconhecido como um dos pais dos "Estados Unidos da Europa" e ainda hoje, em Bruxelas, é possível admirar uma estátua em sua homenagem: um belíssimo tritão em mármore, metade homem, metade cherne.
E se houve alívio na Europa, houve também alívio em Portugal. Recordo agora que 2009 foi ano politicamente activo em terras lusas, com eleições legislativas e autárquicas. O país não arriscou na mudança e premiou Sócrates (no país) e António Costa (em Lisboa), reelegendo Rui Rio (no Porto), antes de Rio assegurar os destinos do PSD e, posteriormente, de São Bento.
Os especialistas ainda hoje se debruçam sobre as causas da vitória absoluta de Sócrates nas legislativas de 2009. Alguns afirmam que Sócrates venceu ao dramatizar o pleito. Outros defendem que Sócrates ganhou porque a oposição desapareceu do combate. Existe alguma verdade neste raciocínio e a demissão de Manuela Ferreira Leite, em plena noite eleitoral, ilustra a fraqueza da oposição e da direita em 2009.
Com 20 anos de distância, concordo com os especialistas. Mas também acrescento que Sócrates venceu porque surgiu aos olhos do povo como um salvador virtual num ano em que as expectativas de crise eram elevadas. A baixa dos juros e dos combustíveis, que Sócrates vendeu sempre como obra sua, conquistou plateias. E uma política de assistencialismo continuado a empresas e famílias comprou as plateias que faltavam. A factura desta insanidade continuaria connosco muito depois da partida de Sócrates, que teria carreira breve como galã em Bollywood.
Mas a vitória do engenheiro não reforçou apenas o PS como o grande partido nacional. Ela projectou-se sobre Lisboa, permitindo a António Costa derrotar o mítico Santana Lopes. A derrota, apesar de tudo, foi tangencial, para pasmo da opinião ilustrada. Mas pasmo maior viria a seguir, quando Santana se retirou da política para uma vida inteiramente dedicada à oração. O país, incrédulo e até entristecido com o desaparecimento do histriónico Santana, passou os anos seguintes na expectativa do seu iminente regresso. Espera inútil. Santana, hoje com 72 anos, permanece com os monges trapistas, onde se notabilizou na doçaria. O seu menino-guerreiro, célebre pastel de abóbora com recheio de licor, foi criação sua.
4 Repito: não cedo à nostalgia. Mas gosto de olhar para a fotografia que tenho nas mãos: eu, no réveillon de 2008, na companhia de alguns fantasmas. Rostos pesados, entristecidos, apreensivos. E equivocados.
O mundo sobreviveu a uma crise económica que se revelou mais psicológica do que propriamente real. Na América, Obama não foi nenhum revolucionário ou salvador; apenas um moderado que herdou duas guerras no Médio Oriente sem conseguir terminar verdadeiramente com nenhuma delas. De Cuba, não houve diálogo nem abertura. Do Zimbabwe, também não: seria preciso esperar pela morte de Mugabe e dos fabulosos irmãos Castro para que Cuba e o Zimbabwe entrassem novamente na realidade. Houve tréguas em Israel, que depois de Golda Meir elegeria a sua segunda mulher para o mais alto cargo do Estado.
Pensando bem, 2009 foi o último ano das nossas juventudes e passou com a gentileza de uma brisa. Não admira por isso que, no réveillon seguinte, os mesmos rostos assustados do passado surgissem agora com largos sorrisos de optimismo e esperança. Nenhum de nós sabia, naquele dia 31 de Dezembro de 2009, que a verdadeira tragédia só viria em 2010.
Lisboa, 10 de Janeiro de 2029