Ponto prévio. Este era, por razões óbvias, o debate mais aguardado. Resta saber se o desempenho dos candidatos neste debate terá influência real nos resultados eleitorais, mas uma coisa é certa: uma derrota neste debate pode provocar um abalo neste início de campanha. Os minutos que antecederam o debate, na transmissão da SIC, mostraram que ambos se prepararam muito e durante longas horas. Tudo apontava para um debate muito disputado.
Confiança e credibilidade conta muito para o voto. Como lidar com isso? José Sócrates diz que o que mais importa é o trabalho feito. E apresenta genericamente as reformas que o Governo levou a cabo nesta legislatura, sempre com o interesse geral como prioridade. Sócrates pede a Clara de Sousa para começar como tinha sido acordado: sobre a qualidade da democracia. Clara de Sousa discorda que isso tenha ficado combinado.
Compromisso com a Verdade. Mas a Madeira e as listas do PSD? MFL responde que a credibilidade se constrói ao longo de uma vida, e enumera pontos biográficos que demonstram a sua credibilidade. MFL não considera que esses pontos da Madeira e das listas do PSD firam a credibilidade das suas propostas. Aponta José Sócrates como responsável pela 'asfixia democrática', uma vez que é o 1º Ministro. JS acusa MFL de se considerar 'dona da Verdade' e de assumir uma posição de superioridade moral, o que mostra falta de respeito para com a democracia. José Sócrates ataca a escolha de Alberto João Jardim para a Assembleia da República. MFL argumenta que o que não permite são candidaturas simultâneas, o que não se aplica a Alberto João.
Economia. O programa do PSD tem mais despesa do que receita: como fazer subir a economia então? MFL defende que o modelo económico tem de ser alterado, pois a actual tem as consequências visíveis na sociedade portuguesa. MFL chama a atenção para os indicadores serem muito negativos na economia portuguesa, mesmo antes da crise internacional chegar ao país. Diz que a crise foi uma benesse para Sócrates, que nela viu uma saída fácil para justificar o seu fracasso. JS volta a chamar a atenção para o facto de MFL se colocar em superioridade relativamente a ele, nas questões económicas. E, depois, enumera uma série de argumentos que mostram o sucesso das políticas económicas do Governo nos primeiros dois anos, sendo que depois chegou a crise. Acusa MFL de pessimismo e negativismo.
PMEs e TGV. MFL responde que JS deveria ter atacado a crise quando o PSD lhe chamou a atenção para a crise, nomeadamente através do apoio às PMEs. JS apresenta números que revelam que o PS apoiou muitas mais PMEs que o PSD quando no Governo. Esteve bem. E ataca a questão do TGV, dizendo que MFL aprovou 4 linhas do TGV em 2003. MFL levanta o tom: não se pode passar de uma situação A para uma situação B sem se olhar para as circunstâncias. Em 2003, a situação do país não era a mesma, e aí o TGV era viável. MFL diz que Espanha quer o TGV em Portugal para obter mais financiamento europeu, e acusa JS de fazer políticas contra o interesse nacional e a favor de Espanha. JS levanta ainda mais o tom, e volta a recordar que em 2003 MFL aceitou o TGV.
Política fiscal. JS disse que não iria aumentar os impostos quando chegasse ao Governo, mas subiu. Como saber que não voltará a fazê-lo? JS responde, contrariado e com um comentário arrogante a Clara de Sousa, explicando que fez o que tinha que fazer para pôr as contas públicas em ordem. E defende que se tudo tivesse corrido bem (i.e. se não houvesse crise internacional), por volta de 2008 o IVA voltaria a baixar. E termina: o melhor contributo foi a fiscalização contra a fraude. Diz que pediu um esforço aos portugueses, e por isso agora tem meios para os ajudar na crise. MFL está em total desacordo com alguns impostos: caso dos reformados. Lembra trabalho feito quando ocupou a pasta das Finanças, e diz que não se pode querer responsabilizar o PSD pela situação do país, quando nos últimos 14 anos só esteve 3 no Governo.
JS refere ironicamente dois impostos criados por MFL, que a líder do PSD hoje quer acabar. JS diz ainda que MFL não fala das portagens nas SCUTS no seu programa, mas passou 4 anos a defender a proposta. MFL contra-argumenta que esses dois impostos hoje já não fazem sentido, o que é perfeitamente natural. Quanto às SCUTS, MFL julga que trariam agora montantes diminutos. JS tenta levar MFL a cair em contradição, mas não consegue, apesar de MFL ter hesitado levemente. JS tentou colar a MFL a ideia de oportunismo político.
Políticas sociais. O PSD tem preconceitos com o Estado Social? MFL acusa JS de querer impor medo nos portugueses, com oportunismo político. MFL afirma que não pretende mexer na Segurança Social, e que nunca criticou as políticas do PS na Segurança Social. Nunca o PSD quis privatizar a Segurança Social. Qual é a base da reforma na Segurança Social do PS, interroga MFL. JS fala do aumento do salário mínimo, que MFL considerou 'irresponsável', de acordo com o 1º Ministro. E tenta dar a imagem que MFL não colocou aquilo que defende no seu programa - um género de argumento por ausência. E finalmente enumera investimentos que o Governo fez na Segurança Social, atacando o que o Governo do PSD fez antes. MFL responde veemente: quem está em julgamento é JS, é ele o 1º Ministro, um cargo que ela nunca ocupou. JS insiste, e diz que o PSD tem tentado privatizar a Segurança Social, recorrendo a uma subtileza no programa do PSD. MFL rejeita em absoluto: diz que JS argumenta com coisas que não estão escritas no programa.
Serviço Nacional da Saúde. JS enumera trabalho feito ao longo da legislatura, que considera ter melhorado em muito o SNS. Aponta ao PSD o facto de no seu programa não ter referido o SNS uma única vez. MFL afirma que só está no programa aquilo em que se pretende mexer, e o SNS não é um domínio em que o PSD pretenda intervir. JS tenta colar a MFL a intenção de privatizar serviços de saúde ou de educação. MFL nega. Mas JS insiste, recorrendo a uma resposta de MFL ao Jornal Público. MFL acusa-o de querer generalizar uma declaração inocente e clara.
Educação. MFL distingue 'impor' e 'negociar'. Ela quer negociar modelos de avaliação com os professores, mas uma coisa é clara: tem de ser outro, que este não funcionou. MFL diz que a imagem de marca do Governo na Educação é o ataque aos professores, que teve uma consequência grave e irreparável que foi a saída em massa de muitos professores experientes. JS diz que tudo o que fez foi em função do interesse geral, e enumera medidas que aplicou na Educação. Assume que o seu Governo poderá ter cometido erros, mas agiu, e acusa MFL de mudar de opinião quanto à avaliação dos professores só porque se tornou líder do PSD. E finaliza dizendo que mudará a ministra da Educação (o que era óbvio e inevitável).
Coligações e entendimentos políticos. MFL é muito clara: não vê hipóteses de se entender politicamente com JS. Por seu lado, JS ataca MFL, e não responde à pergunta (mas levanta o tom).
Porque nunca pediu maioria absoluta? MFL diz que não considera que uma maioria absoluta seja essencial para a 'governabilidade'. E lembra que o PSD permitiu ao Eng. Guterres governar 6 anos em maioria relativa. Uma boa resposta.
Balanço. Foi um debate vivo mas ponderado pelas duas partes, em que os candidatos estiveram muito cautelosos. Foi também o debate mais longo - durou mais que uma hora. Os temas foram discutidos no detalhe, e realçaram as diferenças das propostas dos dois partidos - na Economia, na Educação, nas políticas fiscais. Tornou também saliente que a diferença maior - a do estilo - impossibilita entendimentos políticos entre os dois partidos. O debate foi bem disputado pelos dois, pelo que se aceita o empate. Apesar disso, MFL esteve melhor que JS na exposição dos argumentos, pela simples razão que JS optou por uma estratégia (pouco conseguida) de atacar o programa do PSD por aquilo que lá não está escrito. Em final de contas, nenhum dos dois conseguiu superiorizar-se na generalidade, e este debate acabará por não ser decisivo eleitoralmente, servindo mais para consolidar eleitorado.
Sócrates. Logo no início, Sócrates pede para cumprir o combinado a Clara de Sousa: ficou-lhe mal, e deu sinais de nervosismo. Tentou colar o pessimismo e o negativismo a MFL, e ainda acusá-la de uma atitude de superioridade. Estava muito bem preparado, e foi subindo de forma com o avançar do debate. Recorreu várias vezes ao programa do PSD, embora o tenha feito sobretudo acerca de 'ausências' no programa (a que ele chamou incoerências). Essa estratégia não lhe correu muito bem, na medida em que acusava e sustentava os seus argumentos em 'não-ditos', com um certo 'oportunismo' político (principalmente no Estado Social). O seu objectivo ao longo de debate foi colar ao PSD a intenção de privatizar a Segurança Social e o SNS, e de ser incoerente na defesa das suas convicções.
Manuela Ferreira Leite. MFL tentou, desde logo, mostrar a sua diferença pessoal quanto a José Sócrates, falando dos seus méritos académicos, e da subida política pelo trabalho: o oposto do 1º Ministro. Muito melhor preparada e muito mais confiante que nos debates anteriores, teve um desempenho muito bom. Ficou-lhe mal a insinuação de que JS estava a favorecer Espanha quanto ao TGV, e foi frágil a sua argumentação quanto ao caso de Alberto João Jardim. Teve de rebater acusações falsas quanto ao Estado Social, e teve dificuldades em dominar o debate na abordagem dos temas; esteve mais tempo a defender-se que a atacar o Governo. No geral, conseguiu passar a mensagem de 'seriedade' e 'credibilidade' que pretendia.