Os europeus ocidentais viviam apaparicados. Quase meio século no quente de um casulo protegido pelos arsenais nucleares americano e soviético, mandavam vir o que lhes dava na real gana e lhes era trazido de bandeja. Como se as angústias e tumultos que a Revolução Francesa legara à História (os que não viveram antes da revolução não conheceram a doçura da vida, dizia Talleyrand) se tivessem sumido. Na própria França, um chorrilho desses anos, ainda mais prósperos do que os outros, ficou conhecido por "os trinta gloriosos". Tudo ia pelo melhor no melhor dos mundos possíveis.
Quando despedimento ou falência lhes tiravam trabalho, vinha na bandeja subsídio de desemprego que os amparava até encontrarem de novo lugar ao sol. Quando a doença lhes batia à porta, apareciam médicos, remédios e hospitais, de borla ou quase. Todos os anos tiravam férias pagas. Quando vinha a velhice, vinha também a reforma obrigatória, devidamente remunerada.
Mas a morte passou a levar tempo a chegar e o dinheiro contribuído pela força de trabalho foi sendo pouco para sustentar velhos cada vez mais velhos. Os custos terapêuticos dispararam e as autoridades fornecedoras obrigaram o freguês a ir pagando mais do que as prestações simbólicas do tempo das vacas gordas. Quando a grande crise financeira e económica chegou em 2008 os períodos de desemprego de cada vez mais gente passaram a ser mais longos, esticando a corda aos sistemas de apoio aos desempregados. Por fim a crise pôs à vista que os europeus tinham muito menos influência no mundo do que julgavam e que a sua apregoada superioridade moral - "somos um exemplo para todos" - era sinal para outros de arrogância neocolonialista.
Acabou o room service? Talvez - mas se tiverem juízo na casa de jantar os europeus não irão comer pior do que os outros. Os seus sistemas sociais, ao contrário do que liberais americanos (e chineses) acham, não amolecem assim tanto a fibra das pessoas. Desde 1980 o PIB per capita europeu cresceu 1,83% ao ano, quase o mesmo que o norte-americano (1,95%). Se as democracias europeias resistirem a tentações proteccionistas e afinarem sem demagogia os seus sistemas sociais (não fará doer muito) a União conservará a primeira posição no comércio internacional o que juntamente com os arranjos transatlânticos de defesa da maioria dos seus membros a manterá rica e segura.
O mundo é perigoso e o Ocidente já não manda nele. Três sinais recentes: a China do partido único ultrapassou a Alemanha para ser o maior país exportador do mundo; impunemente, mais um camponês paquistanês desfigurou com ácido a mulher por ela lhe dar uma filha e não um filho; já morreram no Afeganistão 253 soldados britânicos e 40 soldados franceses. Só não estará tudo perdido se os europeus aprenderem de uma vez para sempre que unidos poderão ganhar as guerras políticas e morais da globalização e juntos com os Estados Unidos também as militares (que são improváveis mas não impossíveis).
José Cutileiro
Texto publicado na edição do Expresso de 6 de Fevereiro de 2010