Dois robôs, um aéreo e outro terrestre, observam um mesmo objecto de perspectivas diferentes com as suas câmaras a bordo. Cada um deles obtém uma imagem de qualidade bem distinta da do outro, devido às diferenças de ponto de vista, às resoluções das suas câmaras, às distâncias a que se encontram do objecto, à oclusão de partes do objecto para um deles que são perfeitamente visíveis para o outro, e outras mais. O primeiro robô analisa a imagem através de um algoritmo de visão a bordo e conclui tratar-se de um fogo florestal. O outro faz o mesmo e assume estar em presença de um simples reflexo do sol. Dado que ambos os robôs efectuam trabalho de reconhecimento e deveriam entreajudar-se para decidir se é necessário informar a central de detecção de fogos, atinge-se um beco sem saída, em que os dois robôs não conseguem decidir em conjunto.
A maioria dos métodos modernos em Robótica lida com problemas como este associando incerteza às observações dos robôs, através de métodos baseados em Teoria das Probabilidades. Diversos factores influenciam o modelo de observação de um robô, e têm normalmente impacto na incerteza associada à observação. Por exemplo uma imagem permite maior certeza na localização de um objecto nela presente quando este se encontra mais próximo do que quando se encontra mais distante. Sendo um pouco mais técnico, e exigindo um conhecimento de Teoria das Probabilidades ao nível do Ensino Secundário, a localização do objecto corresponde ao valor médio da função densidade de probabilidade associada ao modelo de observação, enquanto a variância (ou matriz de covariância, no caso multi-dimensional) dá uma medida da incerteza associada (no exemplo anterior, ao objecto mais distante corresponderia uma maior variância). A manipulação destes modelos probabilísticos permite detectar desacordos intransponíveis entre 2 robôs, gerar acordos entre eles, e/ou tomar decisões. No exemplo inicial, e raciocinando de forma propositadamente simplificada, seria declarado um fogo florestal se o robô que o detectou o fizesse com uma muito pequena variância comparativamente com o outro robô, que sugerira o reflexo solar.
Até aqui, se quisermos medir a "seriedade" de um decisor pelo seu grau de certeza dobre a decisão a tomar, a afirmação política com que introduzimos este texto seria aplicável no mundo da robótica: os robôs só concordariam se ambos tivessem grande certeza sobre a mesma informação que observassem.
Mas na robótica, como na política e na economia, o "diabo está nos detalhes". Para que ambos os robôs tomem a mesma decisão, é necessário que ambos entendam que o resultado de processarem uma mesma observação (sobre o qual concordam plenamente) deve levar à mesma decisão! Apesar de muitos economistas terem, em anos recentes, quase concluído que, subitamente, a Economia se tornara uma ciência exacta, a actual crise financeira veio mostrar à exaustão que as decisões são tomadas por políticos, e não por economistas, porque a complexidade das sociedades humanas não permite (ainda?) olhar para elas através de um modelo matemático, por mais sofisticado e complexo que este seja. Mais: o próprio acordo sobre o que observam pode ser influenciado pelo contexto institucional em que se desenrola a sua acção. Por exemplo, um robô que detecte mulheres através do seu vestuário usaria critérios bem distintos para discriminá-las de homens caso fosse desenvolvido por um investigador de um país muçulmano mais radical quanto aos costumes ou por um investigador europeu ou americano.
Tudo isto pode parecer resultado de efabulações mais ou menos diletantes, mas os conceitos atrás referidos estão a ser ensaiados no Instituto de Sistemas e Robótica do Instituto Superior Técnico, num trabalho de investigação que envolve filósofos, engenheiros, cientistas da computação, matemáticos e muitas discussões com biólogos e economistas, entre outros. A ideia principal, defendida na Tese de Doutoramento de Porfírio Silva em 2007, é que os colectivos de robôs devem reger-se de acordo com as instituições humanas, que influenciam a sua apreciação do que observam ao seu redor (um banqueiro certamente não vê as crises sociais e financeiras como o cidadão comum) e as suas decisões, entre muitos outros aspectos. São estes os princípios da Robótica Institucionalista - uma demonstração mais da multidisciplinaridade da ciência dos robôs. Para uma sociedade de robôs institucionalistas, a "seriedade" dos decisores é substituída pela sua ideologia - um princípio afinal bem conhecido em Democracia.
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